Maratona Oscar 2026 – O Agente Secreto
O Agente Secreto (Brasil/França/Países Baixos/Alemanha, 2025) – Direção: Kleber Mendonça Filho
Nota 3,5 / 5,0
Em O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho reafirma seu domínio sobre o cinema como ferramenta de memória, investigação histórica e afeto. Mais do que um thriller político ambientado na ditadura, o longa se estrutura como uma evocação sensorial do Brasil dos anos 70, combinando registros, lendas urbanas, cultura popular e referências cinematográficas para construir um mosaico de lembranças que dialogam diretamente com as dores e fantasmas do presente.
A obra é também uma declaração de amor do diretor a Recife. Por meio de uma reconstrução de época minuciosa, Mendonça transforma a cidade em personagem central, um organismo vivo que vigia, acolhe e, ao mesmo tempo, oprime. Nesse ambiente, acompanhamos Marcelo (Wagner Moura), um professor de tecnologia que se refugia em Recife para fugir de um passado turbulento. O que deveria ser um recomeço se converte rapidamente em um labirinto de desconfiança: vizinhos atentos demais, ruas que parecem observar, encontros que nunca são casuais. A ditadura militar, ainda que tratada como pano de fundo, funciona como névoa permanente, impregnando cada gesto, diálogo e silêncio.
Wagner Moura entrega uma atuação de extrema contenção. Seu Marcelo é um homem cindido entre a culpa, o amor pelo filho e a necessidade de decifrar a própria história, especialmente a identidade da mãe. Sua força está justamente no que não verbaliza; é a presença silenciosa, inquieta, que conduz o espectador pelo clima crescente de paranoia. Ele é acompanhado por um elenco secundário competente e expressivo: Robério Diógenes encarna o delegado nepotista que personifica a burocracia autoritária; Udo Kier surge como o imigrante que escapou do fascismo europeu apenas para enfrentar novas formas de opressão no Brasil.
Mas é Tânia Maria quem se destaca como a revelação de O Agente Secreto. Descoberta por Mendonça Filho, ela ilumina a tela com uma mistura rara de força e delicadeza ao interpretar uma espécie de mãe postiça de um grupo de refugiados. Sua participação é tão marcante que deixa a sensação de que seu papel merecia mais espaço.
Kleber Mendonça se recusa a oferecer respostas diretas. Ele filma a ditadura como uma presença que paira, não apenas sobre a Recife dos anos 70, mas sobre o Brasil contemporâneo. O filme opera como uma viagem por gêneros: oscila entre thriller político, drama, comédia e até ecos de fantasia urbana. Essa liberdade formal, embora ousada e estimulante, gera também certa “crise de identidade”, fazendo com que a narrativa, em alguns momentos, pareça tropeçar nos próprios excessos.
O Agente Secreto é, sobretudo, uma crítica contundente a um país que insiste em esquecer: seus algozes, suas violências, seus ciclos de opressão. Mendonça usa a ficção para tensionar essa tendência ao apagamento, lembrando que a memória histórica não é apenas registro: é ferramenta de sobrevivência. O longa evidencia que a violência no Brasil tem cor, classe e continuidade, e que a naturalização desses padrões só se sustenta porque insistimos em não encarar nosso passado de frente.
Em O Agente Secreto, cinema e memória caminham juntos para reafirmar a urgência de olhar o passado com honestidade. Em tempos em que o esquecimento se apresenta como facilidade política, o filme nos convoca a recuperar histórias fragmentadas, reconstruir identidades e impedir que antigos erros continuem sendo repetidos sob novos disfarces.

