Mulheres na construção civil: quando ocupar espaço também é construir o futuro
Por Adriana Ramalho
Durante décadas, o canteiro de obras brasileiro foi quase um território exclusivamente masculino. Capacetes, botas, ferramentas, máquinas e estruturas de concreto compunham uma paisagem na qual a presença feminina era rara e, muitas vezes, recebida com desconfiança.
Essa realidade está mudando. Ainda lentamente, ainda enfrentando resistência, mas está mudando.
Em São Paulo, onde a construção civil é parte fundamental da transformação permanente da metrópole, essa mudança ganha contornos particularmente importantes. As mulheres estão deixando de ocupar apenas funções administrativas e passando a atuar também na engenharia, na segurança do trabalho e em atividades técnicas e operacionais tradicionalmente associadas aos homens.
Dados divulgados pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP), com base na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), mostram que o Estado tinha, em 2023, cerca de 91,4 mil mulheres com carteira assinada na construção civil, aproximadamente 12% dos trabalhadores formais do setor. No Brasil, eram cerca de 400 mil mulheres, representando 11% do emprego formal da construção.
O crescimento é expressivo. Entre 2006 e 2023, o número de mulheres formalmente empregadas na construção civil brasileira aumentou 184%, segundo levantamento divulgado pelo SindusCon-SP.
Os números revelam uma transformação que começa antes do canteiro de obras. Ela começa na formação profissional. Começa quando uma jovem escolhe engenharia, arquitetura, cursos técnicos ou uma profissão ligada à construção. Começa quando uma família deixa de considerar determinada carreira “inadequada” para uma filha. Começa quando uma empresa percebe que competência profissional não pode ser definida pelo gênero.
Mas a mudança ainda está longe de ser completa. É preciso reconhecer que a construção civil continua sendo um setor majoritariamente masculino. E existe uma diferença importante entre a participação feminina no emprego formal e sua presença no conjunto de trabalhadores do setor.
Um estudo do SindusCon-SP sobre o perfil dos trabalhadores da construção civil apontou que, considerando empregados, trabalhadores por conta própria, formais e informais, as mulheres representavam apenas 4,4% das pessoas ocupadas na construção civil brasileira em 2023.
Essa diferença revela uma questão que precisa ser discutida com mais profundidade.
Não basta comemorar o aumento do número de mulheres contratadas. É necessário perguntar em quais condições elas estão chegando, quais funções ocupam, quanto recebem, quais oportunidades de crescimento encontram e, principalmente, se encontram um ambiente profissional capaz de garantir respeito e segurança.
A presença feminina não pode ser tratada como uma concessão ou como uma ação de marketing corporativo. Ela precisa ser entendida como parte da modernização do próprio setor.
O canteiro de obras também é lugar de mulher
Durante muito tempo, determinadas funções foram associadas quase exclusivamente à força física masculina. Essa concepção está sendo superada pela própria evolução tecnológica e profissional da construção civil.e, competência técnica, qualificação, precisão, conhecimento, planejamento e capacidade de liderança são tão importantes quanto força física. Mulheres trabalham como engenheiras, arquitetas, técnicas de segurança, eletricistas, pintoras, azulejistas, carpinteiras, encarregadas e gestoras. Algumas estão na execução direta dos serviços; outras coordenam equipes e projetos.
E existe algo particularmente significativo nessa presença. Uma mulher no canteiro não representa apenas uma trabalhadora ocupando uma vaga. Ela também representa uma mudança de referência.
A menina que vê uma engenheira coordenando uma obra passa a enxergar uma possibilidade profissional que talvez antes nem imaginasse. A jovem que encontra uma mulher operando equipamentos ou executando serviços técnicos percebe que aquele ambiente também pode pertencer a ela.
É assim que os caminhos se abrem, uma mulher chega, outra percebe que é possível, e depois, outras vêm.
Mas ainda há portas que precisam ser abertas Seria equivocado transformar essa história em uma narrativa exclusivamente de conquistas. O preconceito ainda existe.O machismo também. O assédio moral e sexual ainda é uma realidade em diferentes ambientes profissionais. A falta de equipamentos de proteção adequados às mulheres e as dificuldades relacionadas à conciliação entre trabalho e responsabilidades familiares também são questões que precisam ser enfrentadas.
A construção civil precisa compreender que diversidade não significa apenas contratar mulheres. Significa criar condições para que elas possam permanecer, desenvolver suas carreiras e alcançar posições de liderança. É preciso investir em capacitação, segurança, infraestrutura, políticas de prevenção ao assédio e oportunidades de ascensão profissional.
Mais do que isso: é preciso mudar uma cultura. Porque não há justificativa técnica para considerar determinada profissão masculina ou feminina.
São Paulo pode ser protagonista dessa transformação
São Paulo tem uma responsabilidade especial nesse processo. A maior cidade do país é também um dos grandes laboratórios urbanos brasileiros. A cada novo empreendimento, reforma, infraestrutura ou transformação territorial, milhares de profissionais participam da construção física da cidade.
Se queremos uma construção civil mais moderna, qualificada e preparada para os desafios das próximas décadas, não podemos continuar desperdiçando talentos por preconceito. A inclusão feminina também responde a uma necessidade concreta do setor: a formação e retenção de mão de obra qualificada.
Programas de capacitação voltados às mulheres, como iniciativas desenvolvidas no Estado de São Paulo, demonstram que existe demanda e interesse. Quando recebem treinamento e oportunidade, mulheres entram em profissões como pintura, elétrica, hidráulica, revestimentos e outras atividades técnicas.
Em dezembro de 2025, o Estado de São Paulo instituiu oficialmente o Dia das Mulheres na Construção Civil, celebrado em 23 de junho. É um reconhecimento simbólico importante. Mas datas comemorativas não substituem políticas permanentes. O verdadeiro reconhecimento acontece quando a mulher recebe salário justo, equipamento adequado, respeito, oportunidade de promoção e condições para construir uma carreira.
Existe uma construção que nenhum projeto arquitetônico registra. É a transformação cultural provocada por cada mulher que decide entrar em um espaço onde antes quase não havia mulheres.
Ela não está apenas construindo uma casa, um edifício ou uma infraestrutura. Está ajudando a construir uma nova ideia sobre o trabalho feminino. E talvez essa seja a maior conquista.
As mulheres não precisam ocupar a construção civil para provar que são capazes de fazer o trabalho dos homens. Elas precisam ocupá-la porque são profissionais, porque têm competência, porque escolheram aquela carreira e porque o mercado de trabalho deve estar aberto a todos que estejam preparados para exercer uma função.
A cidade que vemos todos os dias é resultado do trabalho de muitas mãos. É hora de reconhecer também aquelas que, por muito tempo, permaneceram invisíveis.
São Paulo continuará crescendo. Novos prédios serão erguidos, novas obras começarão e novas tecnologias chegarão aos canteiros. Que, junto com elas, cresça também uma certeza:
“O futuro da construção civil brasileira não será construído apenas por homens.”
Será construído por quem tiver conhecimento, competência, disposição e oportunidade. Elas não estão apenas entrando no canteiro de obras. Estão construindo o próprio caminho — e abrindo passagem para as próximas.

