Estudo mostra que algoritmos orientam o consumo de música favorecendo artistas homens e brancos

O Centro de Ética e Inovação de Dados do Reino Unido publicou, em 2023, um relatório sobre o impacto que os algoritmos de recomendação dos serviços de streaming têm no consumo de música.

O estudo indicou que artistas homens e brancos são mais recomendados para os usuários.

A introdução do relatório diz que “se pode amplamente acreditar que o uso dessas tecnologias pode servir para beneficiar injustamente certos grupos em detrimento de outros”, acrescentando que “são inconclusivas as evidências de que essas tecnologias melhoram a experiência de música do usuário”.

O relatório, ainda, faz outros alertas:

 – adverte que os algoritmos, como acontece com qualquer sistema de recomendação, podem refletir vieses que podem subsequentemente reduzir a descoberta de novas músicas, homogeneizar o gosto e enfraquecer os artistas que se lançam sozinhos.

– os artistas domésticos podem ser prejudicados pelo uso de algoritmos de plataformas de streaming baseados em “contagens globais de reprodução”, dado que “territórios com populações relativamente maiores podem se inclinar para seus próprios artistas domésticos”, o que significa, por exemplo, que os artistas do Reino Unido podem receber menos atenção do que os artistas dos EUA.

Ao encomendar a pesquisa, o CDEI pediu considerações para responder às seguintes perguntas, em relação ao “viés” nos algoritmos de streaming de música: como diferentes grupos de artistas e consumidores podem ser afetados por algoritmos?

E em relação a diversidade: Quais impactos positivos e negativos dos algoritmos na diversidade musical?

O relatório concluiu que independentemente do gênero do usuário, as plataformas de streaming de música parecem recomendar predominantemente artistas brancos do sexo masculino aos usuários a uma taxa significativa.

O estudo destaca ainda que “tecnicamente, algoritmo é apenas um termo para qualquer processo ou conjunto de regras a serem seguidas na execução de um processamento digital. Mas esse sistema é ajustado por pessoas que trabalham para organizações que buscam criar lucro para pagar aos acionistas e credores, e esse objetivo inevitavelmente molda a forma como a tecnologia opera”.

Há tempos se discute como os algoritmos privilegiam ou prejudicam determinados grupos. Historicamente, boa parte dos programadores são homens, brancos e héteros. As decisões que tomam ao desenvolver as tecnologias influenciam a maneira como elas funcionam, e não raro, essas decisões são tendenciosas, mesmo que isso aconteça involuntariamente. Com os algoritmos, não é diferente.

Em 2019 pesquisadores europeus analisaram os hábitos de escuta de 330.000 pessoas, ao longo de nove anos, e descobriram que apenas 25% dos artistas ouvidos em todo esse período foram mulheres. “A representação de mulheres e minorias de gênero na indústria da música é tremendamente baixa. Cerca de 23% dos artistas no Billboard 100 de 2019 eram mulheres ou minorias de gênero. As mulheres representam 20% ou menos dos compositores registrados, enquanto 98% das obras executadas por grandes orquestras são de compositores homens”.

Segundo esse estudo, em média, as seis primeiras faixas recomendadas eram de homens, os usuários tinham que esperar até a música sete para ouvir uma mulher, afirmam os autores do estudo em um artigo para a The Conversation.

Por que isso importa?

Porque além de uma fonte de renda para os artistas, também é uma maneira para o público descobrir novos talentos. Se o algoritmo mostrar mais homens e menos mulheres, mais brancos e menos pretos, o ciclo que beneficia homens brancos na indústria musical é alimentado e intensificado. Mais homens e brancos tocando no nas plataformas de streaming, mais homens e brancos serão escolhidos para se tornarem apostas das gravadoras.

O estudo britânico defende que ajustes no algoritmo podem dar chances mais igualitárias também para as mulheres e negros na indústria da música.

A conclusão é que mais investigações são necessárias para saber se os sistemas de recomendação musical são realmente tendenciosos, além de abrir um debate mais amplo sobre como os serviços de streaming estão mudando a forma como as pessoas atualmente ouvem música. Estudo na íntegra Leia aqui