Maratona Oscar 2026 – A Voz de Hind Hajab

A Voz de Hind Rajab (صوت هند رجب / Sawt Hind Rajab – Tunísia/França/EUA, 2025)
Direção: Kaouther Ben Hania

A Voz de Hind Rajab é um filme que não se assiste com distanciamento. Ele se impõe ao espectador como uma experiência física, emocional e moralmente devastadora. Ao reconstruir a tentativa de resgate da pequena Hind Rajab, de apenas seis anos, Kaouther Ben Hania transforma um episódio real da guerra na Palestina em um retrato sufocante do colapso da humanidade diante da burocracia, da violência e da indiferença institucionalizada.

Uma das escolhas mais perturbadoras, e poderosas do filme é o uso das gravações reais das ligações feitas naquele dia. Divulgados pelo governo palestino em janeiro de 2024, os áudios não funcionam apenas como recurso narrativo, mas como o próprio coração do filme. Eles atravessam a encenação, dissolvem qualquer fronteira confortável entre ficção e realidade e produzem um efeito devastador: não estamos ouvindo uma personagem, estamos ouvindo uma criança real pedindo socorro enquanto o mundo falha em salvá-la.

A narrativa acompanha o desespero de um pequeno grupo que tenta viabilizar o envio de uma ambulância até o local onde Hind se encontra escondida: um carro crivado de tiros, cercado pelos corpos de primos e tios mortos. A ambulância está a apenas oito minutos de distância, um detalhe que se repete como uma tortura psicológica, mas separada da menina por camadas e mais camadas de autorizações, negociações e silêncios impostos pela lógica da guerra.

O fio condutor do filme é Omar, personagem que se recusa a aceitar a normalização dessa engrenagem perversa. Sua insurgência contra a burocracia o coloca em confronto direto com seu superior, a quem acusa de forma injusta, mas compreensível de passividade. Mahdi, por sua vez, é a personificação do esgotamento: alguém que conhece profundamente as regras do jogo e sabe que qualquer passo fora do protocolo pode significar mais mortes, inclusive dos próprios socorristas. O embate entre os dois não é moral, mas trágico ambos estão certos e ambos estão derrotados.

Nada, porém, prepara o espectador para a voz de Hind. A menina pede ajuda, pede companhia, pede para voltar para a mãe. Sua fala é simples, infantil, e exatamente por isso insuportável. Ao mesmo tempo, essa voz se transforma em algo maior: um manifesto antibelicista involuntário, um grito que atravessa fronteiras, ideologias e discursos oficiais. É a guerra despida de qualquer retórica, reduzida à sua essência mais cruel.

É impossível ignorar o contexto político que o filme expõe com clareza implacável. A família de Hind foi atacada enquanto deixava o bairro de Tel al-Hawa, em Gaza, seguindo ordens do próprio exército israelense. Depois disso, os serviços de resgate palestinos foram submetidos a um protocolo intenso imposto pelo governo de Benjamin Netanyahu: nenhuma ambulância pode se deslocar sem autorização prévia dos militares invasores. Primeiro, define-se a rota. Depois, espera-se a permissão. Cada etapa consome horas. Ignorar o procedimento significa transformar socorristas em alvos. Cumpri-lo, muitas vezes, significa chegar tarde demais.

Esse mecanismo revela uma monstruosidade que vai além do ato bélico: a transformação da morte em procedimento administrativo. A Voz de Hind Rajab não precisa exagerar nem manipular a realidade já é suficientemente absurda e cruel.

O filme é imprescindível não apenas por sua força dramática que é imensa e incontestável, mas por aquilo que representa. Trata-se de um tributo a Hind Rajab e às mais de 20 mil crianças palestinas mortas por Israel. Mais do que isso, é um registro histórico, um documento moral e um apelo urgente.

Quando os créditos finais surgem, não há catarse, não há alívio. Resta apenas o silêncio pesado de quem foi obrigado a ouvir o que o mundo insiste em calar. A Voz de Hind Rajab não pede empatia: ela exige responsabilidade. Porque enquanto essa voz ecoar, não será possível dizer que não sabíamos.