O impacto do abandono parental na vida de crianças em situação de risco

Por Adriana Ramalho

O abandono parental é uma das formas mais silenciosas e devastadoras de violação dos direitos da criança. Diferente da violência física explícita, ele se manifesta pela ausência: de cuidado, de afeto, de proteção e de responsabilidade. No Brasil e no mundo, milhares de crianças crescem sem a presença ativa de um ou ambos os pais, o que compromete profundamente seu desenvolvimento emocional, social e educacional, ampliando situações de vulnerabilidade e risco social.

Segundo especialistas da área da infância e adolescência, o abandono parental não se resume à ausência física. Ele também ocorre quando há negligência emocional, falta de acompanhamento escolar, desinteresse pela saúde e pela formação moral da criança. Esse tipo de abandono produz marcas duradouras, que podem acompanhar o indivíduo por toda a vida.

Crianças que vivenciam o abandono parental tendem a apresentar maiores índices de ansiedade, depressão, baixa autoestima e dificuldades de estabelecer vínculos afetivos seguros. A ausência de uma referência parental compromete a construção da identidade e do senso de pertencimento, elementos fundamentais para o desenvolvimento saudável na infância.

Em contextos de vulnerabilidade social, esses efeitos são potencializados. A criança abandonada muitas vezes cresce exposta à violência, ao trabalho infantil, ao uso precoce de drogas e à exploração, tornando-se mais suscetível à evasão escolar e ao envolvimento com situações de risco.

Impactos na educação e na socialização

O ambiente familiar exerce papel central no desempenho escolar. Crianças sem acompanhamento parental apresentam maior dificuldade de concentração, baixo rendimento e desmotivação para os estudos. A escola, que poderia ser um espaço de proteção, nem sempre consegue suprir sozinha as lacunas deixadas pela ausência familiar, especialmente em territórios marcados pela pobreza e pela falta de políticas públicas estruturadas.

Além disso, o abandono parental compromete a socialização. A criança pode apresentar comportamentos agressivos, isolamento social ou dificuldade em respeitar regras e limites, reflexos diretos da falta de referências afetivas e educativas no núcleo familiar.

É fundamental compreender que o abandono parental não deve ser tratado apenas como uma falha individual, mas como um problema social e estrutural. Desigualdade econômica, desemprego, dependência química, violência doméstica e ausência de políticas de apoio à família estão entre os fatores que contribuem para o rompimento dos vínculos parentais.

Nesse contexto, mulheres, especialmente mães solo, acabam sobrecarregadas, enquanto muitas crianças crescem sem qualquer referência paterna ou materna efetiva, reproduzindo ciclos de exclusão e vulnerabilidade.

O papel do Estado e das políticas públicas

O enfrentamento do abandono parental exige políticas públicas integradas. Programas de fortalecimento de vínculos familiares, acompanhamento psicossocial, acesso à saúde mental, políticas de renda, educação parental e responsabilização legal são instrumentos essenciais para proteger crianças em situação de risco.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar, com absoluta prioridade, os direitos fundamentais da criança. No entanto, a efetivação desses direitos depende de investimentos contínuos, articulação entre políticas sociais e atuação preventiva, e não apenas punitiva.

Romper o ciclo do abandono

Combater o abandono parental é investir no futuro. Crianças protegidas, acolhidas e acompanhadas têm mais chances de se tornarem adultos emocionalmente saudáveis, cidadãos conscientes e agentes de transformação social. Ignorar o abandono é perpetuar desigualdades; enfrentá-lo é assumir, como sociedade, a responsabilidade coletiva pelo cuidado com a infância.

Mais do que um drama familiar, o abandono parental é um alerta social, e sua superação passa, necessariamente, pelo compromisso público com a dignidade, o cuidado e o direito de toda criança a crescer com proteção e afeto.

Adriana Ramalho é bacharel em Direito, é Política (vereadora em SP 2016/2020), ativista social e palestrante sobre combate a violência doméstica, alienação parental, empreendedorismo feminino, e saúde mental.