A jornada que não termina quando o expediente acaba
Por Adriana Ramalho
Há debates que ultrapassam a esfera da economia e das relações de trabalho. A
discussão sobre o fim da escala 6×1 é um deles. Não se trata apenas de reorganizar
horários ou revisar contratos. Trata-se de perguntar que tipo de sociedade estamos
construindo e quem suporta, todos os dias, o peso desse modelo.
Para milhões de mulheres brasileiras, a jornada não termina quando deixam o local de
trabalho. Ela apenas muda de endereço. Ao chegar em casa, começa um segundo turno:
preparar refeições, cuidar dos filhos, acompanhar os estudos, limpar a casa, administrar a
rotina da família e, muitas vezes, cuidar de pais idosos. É um trabalho essencial para a
sociedade, mas que permanece invisível, não remunerado e desigualmente distribuído.
A escala 6×1 amplia essa desigualdade. Um único dia de descanso semanal dificilmente é
suficiente para recuperar o desgaste físico e mental de seis dias consecutivos de trabalho.
Para muitas mulheres, esse dia sequer representa descanso. É justamente quando se
concentram as tarefas domésticas acumuladas durante a semana, transformando o
domingo, ou qualquer outro dia de folga, em mais um dia de trabalho.
Defender a adoção da escala 5×2 é defender qualidade de vida, saúde e dignidade. Não
significa trabalhar menos por trabalhar menos. Significa compreender que pessoas
descansadas produzem melhor, adoecem menos e constroem relações familiares e
sociais mais saudáveis. Empresas em diferentes países já demonstram que jornadas
mais equilibradas podem resultar em maior produtividade, menor rotatividade e equipes
mais engajadas.
Há também uma questão de justiça. Enquanto as mulheres continuarem assumindo a
maior parte do trabalho de cuidado, qualquer debate sobre igualdade no mercado de
trabalho estará incompleto. A redução da jornada não elimina essa desigualdade, mas cria
condições mais favoráveis para que ela seja enfrentada. Mais tempo disponível significa
mais oportunidades para compartilhar responsabilidades, investir em qualificação,
participar da vida pública e exercer plenamente a cidadania.
É importante reconhecer que a mudança exige diálogo entre trabalhadores,
empregadores e diferentes setores da economia. Há atividades que demandam
adaptações específicas para garantir a continuidade dos serviços. Ainda assim, esse
desafio não deve servir de argumento para manter um modelo que, há anos, demonstra
seus limites para milhões de brasileiros.
O trabalho dignifica, gera renda e transforma vidas. Mas ele não pode consumir a própria
vida de quem trabalha. O desenvolvimento de um país não pode ser medido apenas por
índices econômicos; deve ser avaliado também pela forma como trata as pessoas que
movimentam sua economia todos os dias.
Defender a escala 5×2 é defender um Brasil que valoriza o tempo, a saúde e as famílias.
É reconhecer que o descanso não é privilégio. É um direito. E, para muitas mulheres,
pode representar o primeiro passo para que a jornada, finalmente, tenha um fim.
Adriana Ramalho – Bacharel em Direito, política (vereadora em SP 2016/2020), ativista social e palestrante
sobre combate a violência doméstica, alienação parental, empreendedorismo feminino, e saúde mental

