Bullying e cyberbullying avançam no Brasil e expõem falhas na proteção de crianças e adolescentes
Por Adriana Ramalho
O ambiente escolar, historicamente associado ao aprendizado e à socialização, tem se tornado também palco de uma violência silenciosa e persistente: o bullying.
Potencializado pelas redes sociais e aplicativos de mensagem, o problema ganha novas dimensões no meio digital, configurando o chamado cyberbullying, uma prática que amplia o alcance das agressões e dificulta sua interrupção.
Dados recentes revelam a gravidade do cenário. No Brasil, aproximadamente um em cada quatro estudantes entre 13 e 17 anos já foi vítima de bullying, segundo estudo publicado em 2026. Em escala global, mais de 150 milhões de adolescentes nessa mesma faixa etária convivem com a violência entre pares nas escolas. A situação é tão disseminada que, de acordo com a UNESCO, todas as escolas brasileiras registram casos de bullying, colocando o país entre os que mais enfrentam o problema no mundo .
No ambiente digital, os números também são alarmantes. Cerca de 13,2% dos estudantes brasileiros já sofreram cyberbullying, conforme levantamento acadêmico recente.
Em nível global, um em cada três jovens afirma ter sido vítima de bullying online, evidenciando que a violência ultrapassa os muros da escola. Além disso, uma pesquisa internacional aponta que 66% das crianças acreditam que o cyberbullying aumentou, enquanto metade delas sequer sabe como denunciar ou buscar ajuda.Impactos profundos na saúde e na educação.
Especialistas alertam que os efeitos do bullying vão muito além de episódios pontuais de agressão. As vítimas estão mais suscetíveis a distúrbios emocionais, como ansiedade e depressão, além de apresentarem queda no rendimento escolar e maior risco de evasão. Em casos extremos, o sofrimento pode levar ao isolamento social e a pensamentos suicidas.
O cyberbullying, por sua vez, agrava esse quadro. Diferentemente do bullying presencial, ele ocorre de forma contínua, com exposição pública e potencial de viralização. Comentários ofensivos, disseminação de imagens constrangedoras e ameaças virtuais deixam marcas psicológicas duradouras, muitas vezes invisíveis aos adultos. Como destaca o UNICEF, o bullying digital cria um “rastro permanente”, dificultando que a vítima se desvincule da violência.
Outro fator preocupante é o impacto coletivo: não apenas vítimas, mas também agressores e espectadores são afetados. Estudos indicam que jovens que praticam bullying têm maior propensão a comportamentos de risco, enquanto testemunhas frequentemente se sentem impotentes diante das agressões .
Crescimento das denúncias e visibilidade do problema
No Brasil, o aumento das notificações evidencia tanto a expansão do problema quanto uma maior conscientização social. Em 2024, foram registradas mais de 2,3 mil denúncias de bullying em instituições de ensino, umcrescimento de cerca de 67% em relação ao ano anterior .
Dados oficiais também apontam milhares de ocorrências formais envolvendo bullying e cyberbullying no país.
Apesar do aumento das denúncias, especialistas alertam para a subnotificação, especialmente no ambiente digital, onde o medo de retaliação e a falta de canais acessíveis dificultam a formalização das queixas.
Políticas públicas e caminhos de enfrentamento
Diante do avanço do problema, o Brasil passou a adotar medidas mais rigorosas. Em 2024, entrou em vigor legislação que tipifica o bullying e o cyberbullying como crimes, prevendo punições mais severas, especialmente quando praticados em ambientes virtuais . A medida representa um marco no reconhecimento da gravidade dessas práticas.
Além da legislação, políticas públicas têm buscado fortalecer a prevenção dentro das escolas, com programas de convivência, formação de professores e incentivo à cultura de respeito. O Ministério da Educação também destaca a importância de ações integradas, envolvendo familia, escola e sociedade.
Organismos internacionais, como a UNESCO e o próprio UNICEF, reforçam que o combate ao bullying exige estratégias multidimensionais: educação digital, canais seguros de denúncia, apoio psicológico e políticas de inclusão.
Um desafio urgente e coletivo
O avanço do bullying e do cyberbullying expõe fragilidades estruturais na proteção de crianças e adolescentes, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. Mais do que punir, o desafio está em prevenir, acolher e educar.
Em um cenário onde a violência pode se propagar em segundos pelas telas, garantir ambientes seguros — físicos e digitais — tornou-se uma responsabilidade compartilhada.
Escola, família, poder público e sociedade civil precisam atuar de forma conjunta para interromper um ciclo que compromete não apenas o presente, mas o futuro de
milhões de jovens.
Adriana Ramalho – Bacharel em Direito, política (vereadora em SP 2016/2020), ativista social e palestrante sobre combate a violência doméstica, alienação parental, empreendedorismo feminino, e saúde mental.
Fonte: AL9 Comunicação
Foto: Serhii/Adobe Stock

