Desigualdade educacional: quando permanecer na escola ainda é um desafio
Políticas públicas precisam ir além da matrícula e enfrentar as condições sociais que empurram crianças e adolescentes para fora da escola
Por Adriana Ramalho
A escola brasileira conseguiu avançar significativamente na universalização do acesso à educação, mas ainda enfrenta um desafio mais complexo: garantir que crianças e adolescentes não apenas entrem na sala de aula, mas permaneçam nela, aprendam e concluam sua trajetória escolar. A evasão e o abandono escolar são, em grande medida, sintomas de desigualdades sociais que ultrapassam os muros da escola e exigem respostas articuladas do poder público.
Os dados mais recentes mostram que o problema permanece relevante. Segundo análise do UNICEF com base na PNAD Contínua 2024, mais de 993 mil crianças e adolescentes de 4 a 17 anos estavam fora da escola no Brasil, faixa etária correspondente à escolarização obrigatória. Desse contingente, 55% eram meninos e 45% meninas; 67% eram pretos, pardos ou indígenas. Entre adolescentes de 15 a 17 anos estavam cerca de 440 mil jovens fora da escola, justamente na etapa em que deveriam concluir a educação básica.
Os números ajudam a revelar uma realidade que não pode ser explicada apenas por questões pedagógicas. Pobreza, necessidade de trabalhar, dificuldades de aprendizagem, responsabilidades familiares, gravidez na adolescência, problemas de transporte, violência e falta de perspectivas são fatores que podem afastar o estudante da escola.
A desigualdade começa antes do abandono
O percurso que leva à evasão normalmente não começa no momento em que o aluno deixa de frequentar as aulas. Muitas vezes, ele é construído ao longo de anos de reprovações, dificuldades de aprendizagem, distorção idade-série e ausência de apoio adequado. Um indicador importante é justamente a distorção idade-série, que ocorre quando o estudante apresenta dois ou mais anos de atraso em relação à idade esperada para a etapa escolar. Dados analisados pelo UNICEF mostram uma melhora recente: a proporção de alunos do ensino fundamental público nessa situação caiu de 18,7% em 2019 para 11,3% em 2025. No ensino médio público, a redução foi de 28,9% para 17,6% no mesmo período. Apesar do avanço, a desigualdade permanece evidente. Em 2024, a taxa de distorção idade-série na educação básica era de 15,2% entre estudantes negros, contra 8,1% entre estudantes brancos. Entre meninos, chegava a 14,6%, enquanto entre meninas era de 10,3%.
Os números mostram que o fracasso escolar não se distribui de maneira uniforme. Ele atinge com maior intensidade determinados grupos sociais, revelando a necessidadede políticas públicas capazes de identificar vulnerabilidades antes que elas resultem no abandono.
O papel do Estado
Combater a evasão exige uma política educacional que não se limite à construção de escolas ou à abertura de vagas. É preciso acompanhar a trajetória individual do estudante, identificar faltas recorrentes, dificuldades de aprendizagem e situações de vulnerabilidade e acionar a rede de proteção quando necessário.
Nesse sentido, educação, assistência social, saúde e proteção à infância precisam atuar de forma integrada. O próprio Censo Escolar, coordenado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), coleta informações sobre aprovação, reprovação, transferência e abandono. Esses dados são utilizados na elaboração das taxas de rendimento e também contribuem para indicadores como o Ideb. Para o Inep, essas informações são fundamentais para subsidiar a formulação de políticas públicas educacionais. (Serviços e Informações do Brasil)
Isso significa que os governos possuem instrumentos para saber onde estão os problemas. O desafio está em transformar informação em ação.
Busca ativa: procurar quem ficou para trás
Uma das estratégias que ganharam espaço no enfrentamento da exclusão escolar é a Busca Ativa Escolar, que procura identificar crianças e adolescentes que estão fora da escola e articular diferentes áreas do poder público para que retornem aos estudos.
Segundo o UNICEF, a iniciativa já contribuiu para que 300 mil crianças e adolescentes voltassem à escola no Brasil. A experiência reforça uma mudança importante na lógica da política educacional: não basta esperar que o estudante retorne espontaneamente. Em situações de vulnerabilidade, o poder público precisa localizar, compreender o motivo da ausência e construir uma resposta adequada para cada caso.
A estratégia também evidencia que a evasão não pode ser tratada como responsabilidade exclusiva da escola. Quando um adolescente abandona os estudos porque precisa trabalhar, por exemplo, a solução passa também por políticas de renda, proteção social, qualificação profissional e apoio à família.
Os desafios de uma cidade desigual
Em uma metrópole como São Paulo, o desafio ganha dimensões particulares. A cidade possui uma extensa rede de ensino e grande capacidade administrativa, mas também concentra profundas diferenças socioeconômicas entre territórios.
A distância entre bairros, o tempo de deslocamento, as condições de moradia, a renda familiar, o acesso a equipamentos públicos e as oportunidades de trabalho e cultura podem interferir diretamente na trajetória escolar.Por isso, uma política educacional eficiente precisa olhar para o território. Indicadores médios da cidade podem esconder realidades completamente diferentes entre regiões.
Uma escola localizada em uma área de alta vulnerabilidade pode enfrentar problemas que não aparecem quando os dados municipais são analisados apenas de forma agregada.
É nesse ponto que políticas de monitoramento territorial, busca ativa, reforço da aprendizagem, assistência social e acompanhamento individualizado tornam-se fundamentais.
Permanência também significa aprendizagem
Outro aspecto essencial é compreender que estar matriculado não significa necessariamente estar incluído. Uma criança que frequenta a escola, mas não consegue acompanhar as atividades, acumula reprovações e perde o vínculo com os estudos também está em uma trajetória de risco. O UNICEF alertou, por exemplo, que dados recentes apontaram que 56,4% das crianças do 2º ano do ensino fundamental da rede pública não estavam alfabetizadas nos dados utilizados pela organização em 2024.
A alfabetização na idade adequada é, portanto, uma das estratégias mais importantes para prevenir desigualdades futuras. Quanto mais cedo uma dificuldade é identificada, maior a possibilidade de intervenção pedagógica antes que ela se transforme em defasagem acumulada.
Uma política pública que acompanhe trajetórias
Combater a evasão escolar exige abandonar a ideia de que uma única política será capaz de solucionar um problema tão complexo. É necessário combinar qualidade do ensino, formação e valorização dos professores, assistência às famílias, alimentação escolar, transporte, saúde, proteção contra violências, inclusão digital, apoio psicossocial e acompanhamento dos estudantes.
Também é fundamental avaliar resultados. Uma política pública não pode ser considerada bem-sucedida simplesmente porque recebeu recursos ou atingiu determinado número de pessoas. É preciso perguntar: quantos estudantes permaneceram na escola? Quantos aprenderam? Quantos concluíram a educação básica? Quais grupos continuam sendo deixados para trás?
O Censo Escolar 2025, cujo resumo técnico foi divulgado pelo Inep em março de 2026, reforça justamente a importância da produção de estatísticas educacionais para orientar decisões públicas e acompanhar as condições da educação básica brasileira. (Serviços e Informações do Brasil)
O futuro não pode depender do CEP
A desigualdade educacional brasileira é também uma questão de oportunidade. O endereço onde uma criança nasce não deveria determinar a qualidade da escola quefrequentará, as possibilidades de aprendizagem ou suas chances de concluir a educação básica. Os avanços registrados nos últimos anos mostram que políticas públicas podem produzir resultados. A redução da distorção idade-série é um exemplo. Mas os indicadores também mostram que o progresso não alcança todos da mesma maneira.
O desafio, portanto, não é apenas colocar o aluno dentro da escola. É criar condições para que ele permaneça, aprenda, avance e conclua sua formação. Em uma sociedade marcada por desigualdades históricas, combater a evasão escolar significa enfrentar uma das principais engrenagens da reprodução da pobreza. Mais do que uma questão educacional, trata-se de uma política de desenvolvimento social.
Quando o Estado identifica quem está ficando para trás e age antes que o abandono aconteça, a política pública deixa de ser apenas uma estatística e passa a representar uma oportunidade concreta de transformação.
Adriana Ramalho – Bacharel em Direito, política (vereadora em SP 2016/2020), ativista social e palestrante sobre combate a violência doméstica, alienação parental, empreendedorismo feminino, e saúde mental
Dados: UNICEF
Fonte: AL9 Comunicação

