Oscars que o tempo esqueceu — ou que gostaríamos de esquecer
Por Ana Lopes e Herick Diener
O Oscar é vendido como a consagração máxima do cinema. Mas a história da premiação mostra que nem toda estatueta resiste ao teste do tempo. Enquanto alguns vencedores se tornam parte da cultura popular, outros desaparecem da memória coletiva ou permanecem como lembranças incômodas de escolhas que envelheceram mal.
Entre aplausos históricos, discursos emocionantes e filmes que atravessam gerações, o Academy Awards também coleciona vitórias controversas, escolhas questionáveis e momentos que o tempo tratou de apagar, ou que muita gente preferiria esquecer
Poucos exemplos simbolizam tão bem essa discussão quanto a vitória de Gwyneth Paltrow sobre Fernanda Montenegro e Cate Blanchett em 1999. Premiada por “Shakespeare Apaixonado”, Paltrow se tornou um dos casos mais emblemáticos de um Oscar cuja reputação parece diminuir à medida que os anos passam. Hoje, muitos enxergam a conquista como resultado da poderosa máquina de campanha de Hollywood da época, mais do que como um consenso artístico.
Mas os exemplos não ficaram presos ao passado.
A 96ª cerimônia do Oscar não saiu ilesa do fenômeno cultural do “Barbenheimer”. Enquanto “Oppenheimer” e “Barbie” dominaram as conversas, as bilheterias e as indicações, a categoria de Melhor Roteiro Adaptado acabou premiando “Ficção Americana”, de Cord Jefferson. Embora seja uma obra relevante em suas discussões sobre representação racial e mercado editorial, o filme rapidamente desapareceu do debate público, superando concorrentes como “Pobres Criaturas” e “Zona de Interesse”, dois longas que continuam sendo amplamente discutidos e analisados.
A Academia parece repetir um padrão recorrente: premiar o filme mais adequado ao momento, sem necessariamente identificar aquele que permanecerá relevante anos depois.
O mesmo pode ser dito de algumas vitórias individuais. Em 2022, a cerimônia ficou eternamente marcada pelo tapa dado por Will Smith em Chris Rock. Em meio ao escândalo que monopolizou as manchetes do mundo inteiro, muita gente sequer se recorda de que Jessica Chastain venceu o Oscar de Melhor Atriz por “Os Olhos de Tammy Faye”. Atriz talentosa e dona de uma filmografia respeitável, Chastain recebeu o prêmio por um trabalho frequentemente considerado inferior a outras performances de sua própria carreira, superando concorrentes como Olivia Colman, Kristen Stewart e Penélope Cruz.
Há também casos em que a vitória parece ter representado não o auge de uma trajetória, mas o início de uma fase menos inspirada. Jared Leto conquistou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por “Clube de Compras Dallas”, em uma atuação sensível e elogiada pela crítica. No entanto, os anos seguintes foram marcados por escolhas artísticas questionáveis. Entre “Casa Gucci”, “Morbius” e sucessivas indicações ao Framboesa de Ouro, o ator parece nunca ter conseguido repetir o nível de reconhecimento alcançado naquela noite.
Mais recentemente, alguns observadores da indústria enxergam um fenômeno semelhante em relação à ascensão meteórica de Mikey Madison. A atriz conquistou enorme reconhecimento e se tornou um dos nomes mais comentados de sua geração, mas sua trajetória ainda levanta um debate recorrente em Hollywood: a Academia estaria premiando carreiras consolidadas ou apenas capturando o entusiasmo momentâneo de uma temporada? É uma pergunta que apenas os próximos anos poderão responder.
A verdade é que o Oscar nunca foi apenas uma premiação artística. Ele também reflete campanhas publicitárias milionárias, tendências culturais, interesses da indústria e o clima político de cada época. Por isso, a lista de vencedores nem sempre coincide com a lista de filmes, atores e atrizes que permanecem vivos na memória do público.
Hollywood entrega as estatuetas. Mas é o tempo quem decide quais delas realmente importam.
Ana Lopes é jornalista, colunista de cinema e redatora do jornal Leia São Paulo e Tietê News
Herick Diener é comentarista de cinema e editor chefe do Portal News Gospel

