CRÍTICA – Maratona Oscar / Beau Tem Medo

Beau Tem Medo (Beau is Afraid) – EUA, Reino Unido e Finlândia, 2023

Direção: Ari Aster

Beau Is Afraid é uma obra complexa, repleta de pequenos detalhes e profundos arcos de personagem.

É admirável a maneira única, instigante e avassaladoramente surreal e corajosa de Ari Aster de nos contar a história de Beau e debater com tanta provocação a relação entre filho e mãe, algo que a sociedade ainda vê como algo sagrado e intocável, e muitas vezes fecha os olhos para abusos que podem surgir dessa dinâmica e que apenas a vítima carrega consigo.

A obra é uma materialização de crises de ansiedade sentidas pelo personagem, Beau Wasserman (Joaquin Phoenix), um homem de meia-idade que vive em um apartamento de condições precárias em uma região bastante perigosa.

Beau é o resultado imutável de suas carências, culpas, ressentimentos e lutos indizíveis pelos quais passou. 

Nada é certo em Beau is Afraid, como poderíamos imaginar. A ‘realidade‘ pode ser um sonho, seus momentos mais queridos podem ser uma ilusão, e as inseguranças mais profundas e sombrias de Beau podem ser na verdade uma projeção de uma mãe autoritária.

O longa é  dividido em cinco atos e em cada um, são explicadas todas as complexidades de Beau.

A ansiedade constante do personagem domina o início da obra, colocando os espetadores na mente de alguém que imagina o pior cenário possível em todas as situações com que se depara.

O segundo é o mais pesado, é o ponto onde o sentimento de culpa é aprofundado ao seu extremo.

O terceiro ato entrega uma das sequências mais hipnotizantes e extraordinária, misturando animação 2D, live-action e uma produção artística e cenografia dignas de reverência.

A linha narrativa do terceiro ato é a  mais fascinante de toda a obra, e os desejos mais profundos do protagonista são colocados à nossa disposição.

As duas últimas se preocupa em aprofundar a relação que Beau tem com a mãe, retratando com perfeição as complexidades de cada membro da família, os erros que cada um cometeu, os arrependimentos e as boas ações ao longo das suas vidas.

Ao testemunhar a jornada de Beau, vemos que a proteção exagerada da mãe resultou em um homem incapaz de dizer não, amedrontado com a possibilidade de chatear os outros e que aguarda sempre o pior de todas as situações, que diante das possibilidades de autonomia, empre optou pela zona de conforto e culpa a mãe por consequências que ele construiu.

Beau is afraid é um bom exemplo de uma produção que pode ter diferentes tipos de interpretação a depender de quem assiste, de suas experiências de vida e o quanto ela se identifica com o que está acontecendo.

E surpreende com atuações excelentes, além da fotografia e direção impecáveis.

Phoenix entrega mais uma performance completa, arrebatadora e dividida em várias camadas.

O nível de detalhe em todas os aspectos da produção é digno de respeito e admiração. Sem dúvidas, a complexidade de Beau nos atinge no estômago, nos faz ter uma experiência incômoda e nos leva a uma viagem com uma jornada inquietante, perturbadora e imperdível.