Maratona Oscar 2026 – Foi Apenas Um Acidente

Jafar Panahi volta a demonstrar por que seu cinema permanece essencial mesmo — ou sobretudo — quando opera sob restrições extremas. Foi Apenas um Acidente se apresenta, à primeira vista, como um drama contido, quase minimalista, mas rapidamente se revela uma obra de densidade ética rara, capaz de transformar uma situação cotidiana em um campo minado de questões morais, políticas e existenciais.

A narrativa acompanha Vahid, um mecânico de automóveis que acredita reconhecer, em um cliente aparentemente comum, o homem responsável por sua tortura no passado. A partir desse ponto, o filme se afasta de qualquer expectativa de thriller convencional e mergulha em uma investigação íntima sobre memória, trauma e responsabilidade. Panahi não se interessa pela confirmação objetiva dos fatos, mas pelo efeito corrosivo da dúvida: e se for ele? E, sobretudo, o que fazer diante dessa possibilidade?

A escolha por espaços reduzidos — a oficina, a estrada, o interior de um carro, o deserto — não empobrece a encenação; ao contrário, concentra a tensão e amplia seu alcance simbólico. A atuação econômica do elenco, longe de soar apagada, sustenta um estado permanente de suspensão, em que cada silêncio pesa tanto quanto uma revelação. Panahi filma gestos banais com precisão cirúrgica, revelando como o cotidiano pode carregar dilemas éticos profundos e irreconciliáveis.

O diretor constrói o filme como uma fábula moral sem respostas fáceis. O desejo de vingança, longe de ser tratado como catarse, surge como um impasse que compromete tanto quem sofreu a violência quanto quem tenta repará-la. Nesse sentido, Foi Apenas um Acidente não fala apenas de um indivíduo marcado pelo cárcere, mas de uma coletividade ferida por ciclos contínuos de repressão e sobrevivência.

Há, ainda, um humor seco e desconcertante que atravessa o filme. A ironia surge em momentos estratégicos, não para aliviar o peso do drama, mas para torná-lo ainda mais incômodo. Panahi demonstra domínio absoluto do tom: inquietação e sarcasmo convivem, reforçando o caráter contraditório das escolhas morais apresentadas.

A obra ganha uma camada adicional de significado quando considerada à luz da trajetória do próprio diretor. Cineasta dissidente, Panahi realiza mais uma vez um filme sem autorização oficial, reafirmando sua recusa em silenciar diante do autoritarismo. O gesto político, no entanto, nunca se sobrepõe ao rigor cinematográfico. A militância está inscrita na forma, na recusa do espetáculo, na aposta na dúvida como motor narrativo.

No desfecho — aberto, perturbador e deliberadamente ambíguo — o filme reafirma sua principal força: não oferecer alívio, mas permanência. Foi Apenas um Acidente sugere que certos fantasmas não podem ser exorcizados, apenas confrontados. Resta aos personagens — e ao espectador — decidir como conviver com eles. Panahi, mais uma vez, escolhe o caminho mais difícil e mais honesto: transformar o desconforto em reflexão duradoura.