Maratona Oscar 2026 – Valor Sentimental

Valor Sentimental (Affeksjonsverdi) | Noruega, França, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Reino Unido, 2025 – Direção: Joachim Trier

Nota 4,5 / 5,0

Valor Sentimental estrutura-se a partir de um diálogo que nunca acontece — e é justamente nessa ausência que o filme encontra sua força. A jovem atriz Nora (Renate Reinsve) recusa protagonizar o novo longa do pai, o cineasta Gustav (Stellan Skarsgård), justificando a decisão com uma frase simples e devastadora: eles não conseguem conversar. A partir desse impasse, Joachim Trier constrói um drama em que a fricção entre arte e vida, imperfeita, disfuncional e profundamente poética, torna-se não apenas tema, mas matéria-prima.

Diante da recusa da filha, Gustav escala a atriz norte-americana Rachel Kemp (Elle Fanning) para assumir o papel principal. O projeto será filmado na antiga casa da família, espaço marcado pelo suicídio da mãe e pela infância das filhas. A tentativa de converter o lugar do trauma em cenário de criação e possível cura sintetiza o gesto central do filme: sublimar aquilo que nunca foi dito por meio da arte, sem jamais garantir que isso seja suficiente.

A casa, aliás, é mais do que locação. Ela permanece ameaçada por uma rachadura que nasce no alicerce e que, em nenhum momento, os personagens tentam reparar. Trier transforma esse detalhe arquitetônico em metáfora silenciosa da vida familiar: o que acontece em um cômodo ecoa em outro; o que não foi enfrentado no passado retorna, insistente, anos ou décadas depois. Se os personagens não conversam, a casa fala. E, incapazes de sanar seus problemas estruturais mais profundos, eles optam por reconstruí-la em estúdio, tentando domar o que a realidade insiste em expor.

A cada encontro, o filme revela a figura do pai ausente, emocionalmente inapto, cuja ausência se transforma em método. Gustav desaparece e retorna como quem nem foi, e tenta dirigir a sua vida  e a dos outros como quem dirige um elenco. Há uma ironia amarga no fato de que ele consegue se comunicar melhor com o neto Erik do que com as próprias filhas, como se a intimidade fosse possível apenas quando mediada pela distância geracional ou pela fantasia.

Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), a filha mais nova, é o contrapeso moral da narrativa, mas Trier não cai no óbvio de transformá-la na “irmã boa”. Sua serenidade não nasce da virtude, mas da renúncia e do cansaço. Existe algo profundamente devastador na revelação de que, ainda criança, ela atuou em um filme do pai e, por um breve intervalo de tempo, recebeu uma atenção que jamais se repetiu. A memória desse afeto raro torna-se tão dolorosa quanto sua ausência prolongada.

A casa deixa de ser apenas um espaço doméstico e passa a operar como um repositório de afetos e memórias, e o filme demonstra sensibilidade ao transformá-la, conforme a cena exige, em percurso confuso, abrigo provisório ou território ameaçador. A encenação revela com rigor a forma como os personagens se posicionam no quadro: Gustav costuma ocupar o centro e impor sua presença à composição, enquanto as filhas se recolhem às bordas, aos vãos e aos limites do cenário, como se o enquadramento traduzisse, em silêncio, a tensão e o desequilíbrio dessa relação.

Muito desse impacto se deve às atuações de Renate Reinsve, Stellan Skarsgård e Inga Ibsdotter Lilleaas. O trio comunica décadas de arrependimentos, perdas e memórias por meio de olhares, pausas e gestos mínimos, conferindo aos movimentos narrativos de Valor Sentimental uma lógica emocional rara, em que quase nada precisa ser explicitado.

Com uma realização segura e um apuro técnico evidente, o filme equilibra humor e emoção sem jamais perder o controle do tom. A sobriedade que o atravessa soa como uma decisão artística deliberada de Trier: encenar o sofrimento com a mesma delicadeza e contenção com que essa família procura disfarçar suas fraturas. Ao término, fica uma impressão duradoura e pouco comum: a de que a memória não se encerra no que passou, mas persiste como um lugar habitado — uma casa da qual nunca saímos por completo, ainda que insistamos em dizer o contrário.

Nota Pessoal: o melhor filme da temporada.